Brinquedo com IA: SBP alerta pais e lista o que checar antes de comprar

Por Casa em Pauta

22 de outubro de 2026

“A incerteza científica não significa ausência de riscos.” A frase resume o alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sobre brinquedos com inteligência artificial, noticiado pela Agência Brasil em 21 de outubro de 2026. A entidade recomenda cautela com produtos que usam IA generativa, conversam livremente com a criança, coletam dados pessoais ou simulam amizade e apoio emocional.

O alerta chega no período em que as famílias começam a pensar nos presentes de fim de ano, e boa parte desses brinquedos fica ligada ao Wi-Fi de casa o dia inteiro, com microfone e, às vezes, câmera.

 

Os riscos apontados pela SBP

A nota do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP, publicada no site da SBP, lista três frentes de risco:

  • Vínculo: apesar da linguagem afetuosa, a IA não é uma pessoa, e a criança pode passar a vê-la como amiga ou cuidadora.
  • Dados: microfone, câmera e internet permitem gravar voz, imagem e a rotina da casa.
  • Uso prolongado: recursos de personalização e engajamento podem estimular dependência do produto.

A SBP cita como exemplo de tendência o Muse Charm, da Meta, um aparelho portátil comparado pela imprensa a um “Tamagotchi com IA”. Ele não é feito para crianças, mas mostra a IA ganhando formas físicas, pessoais e portáteis, que podem chegar ao quarto infantil.

Os efeitos de longo prazo na saúde mental e no comportamento ainda não estão bem mapeados. Em julho de 2026, o Ministério da Justiça já tinha publicado nota técnica pedindo que Senacon e ANPD apurassem se brinquedos com IA vendidos no Brasil cumprem o ECA Digital, segundo o Economic News Brasil. A nota não mandou retirar produtos do mercado.

 

Checklist antes de levar o brinquedo para casa

Fileira de robôs de brinquedo coloridos sobre fundo branco
Robôs de brinquedo. Imagem ilustrativa. Foto: Eric Krull / Unsplash

 

A SBP orienta que a família consiga responder a estas perguntas antes da compra. Se a embalagem, o site do fabricante ou o anúncio não trazem as respostas, a recomendação da entidade é não comprar.

  • O brinquedo tem câmera? Tem microfone? Eles podem ser desligados fisicamente?
  • Ele precisa de internet o tempo todo ou funciona offline?
  • Quais dados grava, por que motivo e onde ficam armazenados?
  • Os dados são compartilhados com terceiros? Dá para apagar?
  • Quais funções vêm ligadas de fábrica?
  • A classificação etária e a supervisão dos pais estão claras?
  • O produto se apresenta como amigo ou apoio emocional?
  • Há anúncios, perfil de consumo ou assinatura escondida?
  • A criança, na idade dela, vai entender que está falando com uma máquina?

Uma pergunta extra, que a SBP também propõe: o que a tecnologia acrescenta à brincadeira, e a criança continua participando ativamente ou só ouve e responde?

 

Configurando em casa, passo a passo

  1. Crie uma conta de responsável no app do fabricante com e-mail seu, não da criança.
  2. Conecte o brinquedo à rede de convidados do roteador, separada dos computadores e câmeras da casa.
  3. Desative câmera, microfone sempre ativo e gravação na nuvem que não forem essenciais.
  4. Troque a senha padrão e ative atualizações automáticas de firmware.
  5. Defina horários de uso longe do quarto à noite, para não competir com o sono.
  6. Revise o histórico de conversas, quando o app permitir, nas primeiras semanas.

O raciocínio é o mesmo de qualquer aparelho conectado dentro de casa, como mostram os cuidados com câmeras de segurança após vazamentos.

 

Comprou e se arrependeu: prazos e canais

Situação O que a família pode fazer Base
Compra pela internet ou fora da loja Desistir em até 7 dias do recebimento CDC, art. 49
Dados da criança coletados Pedir acesso, correção ou exclusão ao fornecedor LGPD, art. 18
Conteúdo impróprio ou falha de segurança Usar o canal de notificação do fornecedor ECA Digital, art. 28
Sem resposta Reclamar no Procon, consumidor.gov.br ou ANPD Nota da SBP

 

O descuido mais comum é manter o padrão de fábrica

Fabricantes e lojas também têm obrigação: informar riscos e medidas de segurança e privacidade a pais, responsáveis e às próprias crianças, tenham eles comprado o produto ou não.

A maior parte da exposição não vem de um defeito escondido, e sim do brinquedo usado do jeito que saiu da caixa: microfone ligado, gravação ativa, conta criada com dados da criança. Gastar quinze minutos nas configurações antes de entregar o presente reduz boa parte dos riscos que a SBP descreve.

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