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Quanto capital de giro uma construtora precisa para começar a obra?

Cronograma físico-financeiro, compra de materiais, mão de obra e prazos de recebimento determinam a necessidade de recursos.

Publicado em 6 min de leitura
Construção residencial em andamento com estrutura de madeira e guindaste
Nesta pauta8 tópicos
  1. Por que o começo da obra é o momento mais perigoso para o caixa
  2. Os quatro números que formam a conta
  3. Uma simulação para enxergar o pico
  4. Onde dá para reduzir a necessidade de caixa
  5. O que não dá para cortar
  6. Patrimônio de afetação muda a forma de olhar o caixa
  7. Acompanhar a obra pelos números, não só pelo canteiro
  8. O erro a evitar a partir da próxima obra

A resposta curta: o capital de giro de uma obra é igual ao maior buraco acumulado no caixa entre o primeiro pagamento e o momento em que as entradas passam a superar as saídas. Não existe um percentual fixo do orçamento que sirva para todo empreendimento, e é justamente o uso de um percentual de bolso que pega muitas construtoras de surpresa.

Esse buraco depende de três coisas: em que ritmo a obra consome dinheiro, quando o dinheiro de clientes e financiamento começa a entrar e quanto prazo os fornecedores dão. Mude qualquer uma delas e a necessidade de caixa muda junto.

 

Por que o começo da obra é o momento mais perigoso para o caixa

Os primeiros meses concentram despesas que não viram receita imediata: terraplenagem, fundação, canteiro, ligações provisórias, projetos complementares, taxas e registro. Ao mesmo tempo, as vendas ainda estão no começo e, se houver financiamento à produção, o banco libera recursos conforme o avanço medido, ou seja, depois que a construtora já gastou.

O resultado é uma fase em que o dinheiro sai antes de entrar. A curva S, que mostra o avanço acumulado da obra ao longo do tempo, ajuda a visualizar isso: o ritmo é lento no início, acelera no meio (estrutura e alvenaria) e desacelera no acabamento. Só que, no caixa, o início já pesa, porque é onde estão os gastos que não podem esperar.

 

Os quatro números que formam a conta

Dois trabalhadores da construção civil com capacete consultando projeto na obra
O cronograma da obra é também o cronograma do caixa. Foto: Pexels

 

1. Cronograma físico-financeiro

É a base de tudo. Ele distribui o custo de cada etapa pelos meses da obra. Sem ele, qualquer cálculo de capital de giro é chute. Um cronograma realista considera a sequência de serviços, a produtividade das equipes e as janelas de chuva da região.

 

2. Prazo de pagamento a fornecedores

Concreto, aço e mão de obra terceirizada costumam ter prazos curtos. Materiais de acabamento às vezes permitem negociação melhor. Cada dia de prazo conquistado reduz o pico de necessidade de caixa.

 

3. Folha e mão de obra

Mão de obra própria é paga todo mês, com encargos, sem relação com o recebimento. Empreiteiras costumam receber por medição, o que alinha melhor o desembolso ao avanço físico.

 

4. Ritmo das entradas

Aqui entram as parcelas de clientes durante a obra, o repasse do financiamento na entrega e, se houver, as liberações do financiamento à produção. É o número que mais varia, porque depende de vendas, distratos e inadimplência.

 

Uma simulação para enxergar o pico

Imagine um pequeno residencial com custo de obra de R$ 6 milhões, executado em 20 meses. Os números abaixo são ilustrativos, só para mostrar a mecânica:

Fase Meses Saídas no período Entradas no período Saldo acumulado
Preparação e fundação 1 a 4 R$ 900 mil R$ 200 mil (R$ 700 mil)
Estrutura 5 a 10 R$ 2,1 milhões R$ 1,3 milhão (R$ 1,5 milhão)
Vedações e instalações 11 a 15 R$ 1,8 milhão R$ 1,6 milhão (R$ 1,7 milhão)
Acabamento e entrega 16 a 20 R$ 1,2 milhão R$ 3,4 milhões R$ 500 mil

Nesse exemplo, o pior momento é por volta do 15º mês, quando o saldo acumulado chega a R$ 1,7 milhão negativo. Esse é o capital de giro necessário: cerca de 28% do custo da obra. Se a construtora reservar só o necessário para os primeiros meses, vai faltar dinheiro justamente na fase de instalações, quando parar a obra custa mais caro.

Repare também que a entrada grande vem no fim, com o repasse na entrega. Se esse repasse atrasar dois meses por causa de documentação, o pico negativo se estende e o custo financeiro sobe.

Fazer essa conta com dados reais é o centro de um planejamento financeiro de projetos bem montado. A Potencer, que atende incorporadoras entre seus clientes, trabalha com projeções de caixa de 12 a 24 meses em três cenários, o que permite ver quanto o pico piora se as vendas andarem mais devagar.

 

Onde dá para reduzir a necessidade de caixa

  • Negociar prazo com fornecedores-chave, principalmente aço e concreto, que pesam na fase de estrutura.
  • Comprar por etapa, não tudo de uma vez. Estoque parado no canteiro é dinheiro imobilizado, além de risco de perda e furto.
  • Contratar empreiteiras por medição, alinhando o pagamento ao serviço executado.
  • Calibrar o fluxo de parcelas dos clientes para que a curva de recebimento acompanhe a curva de gasto, em vez de concentrar tudo na entrega.
  • Usar financiamento à produção, quando disponível, sabendo que ele libera recursos depois da medição e não elimina a necessidade de capital próprio no começo.

Nenhuma dessas medidas funciona sem acompanhamento. Uma gestão do fluxo de caixa empresarial feita semana a semana mostra cedo quando uma etapa está consumindo mais que o previsto, antes que o problema apareça no saldo bancário.

 

O que não dá para cortar

Operários espalhando concreto em uma fôrma de fundação
Fundação e estrutura são as etapas em que economizar no lugar errado sai mais caro depois. Foto: Pexels

 

Na tentativa de reduzir a necessidade de caixa, algumas construtoras adiam o que não deveria ser adiado. Ensaios de concreto, controle tecnológico, impermeabilização da fundação e segurança do canteiro estão nessa lista. Economizar aqui gera retrabalho, multa ou patologia que aparece depois da entrega, quando o custo é muito maior.

A reserva para imprevistos também não é luxo. Chuva acima da média, reajuste de insumos e atraso de licença acontecem em quase toda obra. Uma margem de contingência sobre o pico calculado protege a construtora de ter que parar no meio do caminho.

 

Patrimônio de afetação muda a forma de olhar o caixa

Em incorporações submetidas ao patrimônio de afetação, previsto na Lei 10.931/2004, o dinheiro de cada empreendimento fica separado do restante da empresa. Isso protege o comprador, mas também impede que a construtora use o caixa de uma obra para cobrir o buraco de outra.

Na prática, cada empreendimento afetado precisa ter seu próprio capital de giro calculado e garantido. Construtoras que tocam várias obras ao mesmo tempo precisam somar os picos, considerando que eles podem coincidir no calendário.

 

Acompanhar a obra pelos números, não só pelo canteiro

O engenheiro acompanha o avanço físico. Alguém precisa acompanhar, com a mesma frequência, o avanço financeiro. Os dashboards de custos e resultados que cruzam percentual executado com percentual gasto mostram cedo quando uma etapa está estourando.

Para construtoras pequenas, que não têm diretor financeiro, ter alguém em tempo parcial cuidando dessa direção financeira estratégica costuma sair mais barato que descobrir o rombo no meio da estrutura. O mesmo vale para quem já passou por um aperto: uma reorganização financeira de empresas bem conduzida ajuda a alongar compromissos e começar a próxima obra com o caixa recomposto.

Na Potencer, o acompanhamento mensal do realizado contra o orçado é feito em reuniões com o time da empresa, o que facilita corrigir o rumo antes do próximo desembolso pesado. Se quiser conhecer o perfil da equipe, a Potencer apresenta seus especialistas em finanças corporativas no próprio site. E para quem está do outro lado, comprando na planta, vale ler o que observar em um condomínio novo.

 

O erro a evitar a partir da próxima obra

Não calcule o capital de giro como um percentual fixo do orçamento nem olhe só para os primeiros meses. Monte o fluxo de caixa mês a mês, encontre o ponto mais negativo, some uma margem para imprevistos e garanta esse valor antes de começar. Obra parada por falta de dinheiro custa mais do que qualquer juro de capital reservado.

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