“A incerteza científica não significa ausência de riscos.” A frase resume o alerta da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) sobre brinquedos com inteligência artificial, noticiado pela Agência Brasil em 21 de outubro de 2026. A entidade recomenda cautela com produtos que usam IA generativa, conversam livremente com a criança, coletam dados pessoais ou simulam amizade e apoio emocional.
O alerta chega no período em que as famílias começam a pensar nos presentes de fim de ano, e boa parte desses brinquedos fica ligada ao Wi-Fi de casa o dia inteiro, com microfone e, às vezes, câmera.
Os riscos apontados pela SBP
A nota do Grupo de Trabalho de Saúde Digital da SBP, publicada no site da SBP, lista três frentes de risco:
- Vínculo: apesar da linguagem afetuosa, a IA não é uma pessoa, e a criança pode passar a vê-la como amiga ou cuidadora.
- Dados: microfone, câmera e internet permitem gravar voz, imagem e a rotina da casa.
- Uso prolongado: recursos de personalização e engajamento podem estimular dependência do produto.
A SBP cita como exemplo de tendência o Muse Charm, da Meta, um aparelho portátil comparado pela imprensa a um “Tamagotchi com IA”. Ele não é feito para crianças, mas mostra a IA ganhando formas físicas, pessoais e portáteis, que podem chegar ao quarto infantil.
Os efeitos de longo prazo na saúde mental e no comportamento ainda não estão bem mapeados. Em julho de 2026, o Ministério da Justiça já tinha publicado nota técnica pedindo que Senacon e ANPD apurassem se brinquedos com IA vendidos no Brasil cumprem o ECA Digital, segundo o Economic News Brasil. A nota não mandou retirar produtos do mercado.
Checklist antes de levar o brinquedo para casa

A SBP orienta que a família consiga responder a estas perguntas antes da compra. Se a embalagem, o site do fabricante ou o anúncio não trazem as respostas, a recomendação da entidade é não comprar.
- O brinquedo tem câmera? Tem microfone? Eles podem ser desligados fisicamente?
- Ele precisa de internet o tempo todo ou funciona offline?
- Quais dados grava, por que motivo e onde ficam armazenados?
- Os dados são compartilhados com terceiros? Dá para apagar?
- Quais funções vêm ligadas de fábrica?
- A classificação etária e a supervisão dos pais estão claras?
- O produto se apresenta como amigo ou apoio emocional?
- Há anúncios, perfil de consumo ou assinatura escondida?
- A criança, na idade dela, vai entender que está falando com uma máquina?
Uma pergunta extra, que a SBP também propõe: o que a tecnologia acrescenta à brincadeira, e a criança continua participando ativamente ou só ouve e responde?
Configurando em casa, passo a passo
- Crie uma conta de responsável no app do fabricante com e-mail seu, não da criança.
- Conecte o brinquedo à rede de convidados do roteador, separada dos computadores e câmeras da casa.
- Desative câmera, microfone sempre ativo e gravação na nuvem que não forem essenciais.
- Troque a senha padrão e ative atualizações automáticas de firmware.
- Defina horários de uso longe do quarto à noite, para não competir com o sono.
- Revise o histórico de conversas, quando o app permitir, nas primeiras semanas.
O raciocínio é o mesmo de qualquer aparelho conectado dentro de casa, como mostram os cuidados com câmeras de segurança após vazamentos.
Comprou e se arrependeu: prazos e canais
| Situação | O que a família pode fazer | Base |
|---|---|---|
| Compra pela internet ou fora da loja | Desistir em até 7 dias do recebimento | CDC, art. 49 |
| Dados da criança coletados | Pedir acesso, correção ou exclusão ao fornecedor | LGPD, art. 18 |
| Conteúdo impróprio ou falha de segurança | Usar o canal de notificação do fornecedor | ECA Digital, art. 28 |
| Sem resposta | Reclamar no Procon, consumidor.gov.br ou ANPD | Nota da SBP |
O descuido mais comum é manter o padrão de fábrica
Fabricantes e lojas também têm obrigação: informar riscos e medidas de segurança e privacidade a pais, responsáveis e às próprias crianças, tenham eles comprado o produto ou não.
A maior parte da exposição não vem de um defeito escondido, e sim do brinquedo usado do jeito que saiu da caixa: microfone ligado, gravação ativa, conta criada com dados da criança. Gastar quinze minutos nas configurações antes de entregar o presente reduz boa parte dos riscos que a SBP descreve.











